Capítulo 2: O Gol que Não Se Compra
O treino do dia seguinte começou com neve. Neve de verdade, aquela que cai em flocos pesados e cobre o campo em dez minutos como um lençol de algodão. Os técnicos avisaram que podíamos jogar, o que significava que o sistema de aquecimento da grama artificial funcionava bem o suficiente para derreter a neve no primeiro contato. Boa notícia. Ruim para quem tem chuteiras dois números maiores, porque o couro sintético escorrega como sabão molhado.
Vicente chegou trinta minutos atrasado, como sempre. Ele tem o direito de chegar atrasado. É o capitão. O capitão não chega na hora, o capitão chega quando o campo já está esperando. Isso também tá no manual, página cento e vinte e três. Eu cheguei no horário. Chego sempre. Quando você mora num subsolo, atraso é o mesmo que não existir.
O campo estava preparado. Grama derretida, cheiro de borracha e nitrogênio líquido, os três drones sobrevoando em triângulo perfeito. Os Kings estavam no campo, cada um no seu lugar, cada um na sua posição que ninguém perguntou mas que todos sabem. Vicente no centro. Tomás no meio-campo esquerdo, óculos de proteção, anotando algo num caderno que ele provavelmente não mostra pra ninguém. Gael na arquibancada, encostado na grade, sem uniforme, só observando. Sol sentada num banco da lateral, tablet na mão, provavelmente organizando apostas sobre o que ia acontecer hoje.
Eu entrei pelo fundo do campo. Zeca me acenou do gol. A bola estava no meio. Três passes de aquecimento e o campo já tava quente.
--- O aquecimento técnico foi de quinze minutos. Passes curtos, circulares, mantendo a posse. Vicente tocava a bola e passava. Eu não toquei até o minuto oito, porque o manual, página cento e cinquenta e nove, dizia que novatos não devem tocar a bola nos primeiros minutos de aquecimento, sob pena de parecerem arrogantes. Eu obedeci. Ouvia os veteranos trocando palavras entre si. Palavras que eu não conseguia distinguir, mas que eu entendia o tom.
O primeiro treino ofensivo começou às dez e quinze. Vicente posicionou o time num 4-3-3. Três atacantes. Ele no centro. Tomás à esquerda. Gael não joga, Gael observa, então o terceiro atacante era um italiano chamado Luca, cujo sobrenome eu não conseguia lembrar porque todos os italianos aqui parecem ter o mesmo nome.
O primeiro lance foi um contra-ataque simulado. Zeca lançou a bola de longuíssimo. A bola voou sobre o campo. Eu corri. Vicente correu. Luca correu. A bola pousou entre mim e Vicente a dois metros do gol adversário. Eu chutei. A bola passou. Vicente tentou recuperar no segundo toque e escorregou. A bola foi pro fundo. Zeca pegou com uma mão só e ainda fez um sinal de positivo pra mim.
Os drones giraram. Três câmeras capturando cada movimento, cada respiração, cada gesto. Eu sabia que tudo que acontecia ali ficava gravado, analisado, armazenado num servidor que Sturm provavelmente acessa de qualquer lugar do mundo. O treino era também um espetáculo. E eu era o atração nova.
O segundo lance foi mais interessante. Vicente me recebeu a bola no meio-campo. Quatro passes de distância. Ele me olhou e eu vi o sorriso dele. Aquele mesmo sorriso. Aquele de quem não espera nada de bom, mas já está se divertindo com a queda. Ele me passou a bola de volta. Eu não chutei. Dei um drible de corpo, passei por ele e continuei correndo. O drible foi simples. Não foi bonito. Foi funcional. O pé passou por baixo do outro, o corpo mudou de direção e Vicente ficou pra trás, parado, com a cara de quem não entendeu o que aconteceu.
Os drones mudaram de ângulo. Os três câmeras se concentraram em mim, não em Vicente. Um loop automático começou. A repetição do drible apareceu numa tela lateral que os técnicos usam, e eu vi Vicente parado, o corpo dele como um poste e a minha perna saindo do campo de visão como quem atravessa um portão.
Tomás, no banco de reservas, abriu o caderno. Eu vi. O caderno dele era fino, capa preta, e ele escreveu algo rápido. Talvez tenha desenhado um diagrama. Talvez tenha riscado o plano de jogo original e desenhado outro. Ele olhou pra cima, pra mim, e manteve o olhar por dois segundos. Não foi um gesto de admiração. Foi mais como quem registra uma variável inesperada num experimento.
Vicente não tentou recuperar. Ele só me olhou e o sorriso não mudou. Mas o sorriso mudou de algo, né. Não mudou de expressão. Aconteceu no silêncio, na diferença entre a primeira vez e a segunda, quando alguém que estava rindo de uma piada interna percebeu que a piada foi contada sem a participação dele.
Luca, o italiano, olhou pra trás. Luca, o italiano, olhou pra trás. Não disse nada, mas a sobrancelha levantou. Quem levantou a sobrancelha foi Tomás, não Luca. Tomás levanta a sobrancelha como quem anota.
O treino continuou. Vicente parou de me passar a bola. Deu passe pra todos menos pra mim. Isso também tá no manual, página cento e sessenta e dois. Não passes ao novato no primeiro dia, pra não criar expectativa irreais. Eu não reclamei. Eu já sabia que Vicente ia me ignorar. O que eu não esperava era a rapidez com que ele cortou a comunicação. Três passes perdidos, dois desarmes e um chute pra fora. A bola quase nunca chegava aos meus pés.
No intervalo, Sturm apareceu. Ele não vestia uniforme de técnico. Vestia um casaco de lã que parecia ter saído de uma revista e não de um armário. Ficou de pé no meio do campo, sem dizer nada, só observando. Os drones o seguiram. A câmera principal focou nele por seis segundos. Ele sabia. Sturm sempre sabe.
O segundo tempo foi pior. Vicente jogava no espaço do meu lado direito, onde eu deveria estar, e eu ficava correndo pra esquerda. O campo virou um jogo de xadrez com pessoas. Tomás ia pra esquerda, Vicente ia pra direita, e eu ficava no meio, sem bola, com chuteiras que escorregavam e um coração que batia diferente.
No minuto sessenta, o lance. Zeca lançou de novo, desta vez mais longo, mais alto, mais difícil. A bola desceu. Eu estava sozinho. Não estava. Havia alguém atrás de mim. Não era Vicente. Era um defesa do nível dois, alto, forte, que eu não conhecia. O nome dele não estava no meu manual. A bola caiu. Eu a controlei com o peito e fiz um giro completo. O defesa errou o tempo. Eu passei. Mais um drible. Desses que não são bonitos, mas funcionam.
O gol vazio estava ali. A rede branca tremia com o vento de montanha. Eu chutei. A bola não foi forte, mas foi precisa. Passou a meio metro do poste direito e entrou.
Silêncio. Três segundos. Zeca explodiu. Ele bateu a palma da mão no gol e gritou. Os outros jogadores dos Kings olharam. Não foi alegria. Foi cálculo. Cada um deles fez a mesma conta mental em tempo real: se esse novato continuar jogando assim, a hierarquia muda. E a hierarquia, aqui, não é opinião. É matemática.
Os drones capturaram tudo. O gol, o grito de Zeca, os rostos dos veteranos. Eu vi a tela lateral e o loop já estava rodando. O gol repetia. E repetia. O gol se transformando num objeto de repetição mecânica, o mesmo lance por dez, doze, quinze vezes. Os drones mantinham o loop até que um técnico os desligasse. O que aconteceu aos doze segundos.
--- Sturm não aplaudiu. Sturm nunca aplaude. Ele assentiu uma vez. Só uma vez. E isso era mais assustador que dez palmadas.
O treino acabou. O último lance foi Vicente, que tentou um drible contra mim, eu não mordi. Vicente passou. O drible dele era bonito. O meu não morder foi mais bonito ainda, pelo que eu vi no espelho do vestiário mais tarde. Mas Vicente não sabia disso. Ele só sabia que eu não mordi e, pra ele, isso era um insulto.
Fui ao refeitório às doze e dez. O manual, página duzentas e vinte e oito, dizia que bolsistas do nível quatro não têm convite automático. Mas a regra também dizia que qualquer aluno pode sentar em qualquer mesa, desde que o dono da mesa não proíba. Então eu entrei.
A mesa dos Nível 1 era a plataforma elevada. Madeira clara, iluminação quente, um lustre que eu não conseguia imaginar o preço mas que eu já calculava mentalmente: pelo menos trezentos mil reais. As cadeiras eram de couro. A toalha era de linho. As taças de água tinham a borda fina o suficiente pra tremer com o toque.
Eu sentei na ponta. Não pedi permissão. Não pedi desculpa. Sentei.
A mesa era grande. Doze lugares no máximo. Quatro pessoas estavam sentadas. Vicente, óculos de sol mesmo dentro, já comendo. Ao lado dele, uma menina que eu reconheci do painel como Nível 1 absoluto. Ao outro lado, um garoto ruivo que eu não conhecia, de olhos cinzentos, que me olhou com indiferença. No final da mesa, uma garota morena, celular na mão, gravando. Eu não vi a câmera. Vi depois.
A garota morena era Antônia. O celular estava disfarçado numa luminária de mesa que ela havia posicionado de forma que o ângulo me capturava sem que eu percebesse. Eu já tinha lido sobre isso no manual. Antônia gravava tudo. Era a sua forma de construir material para o seu canal concorrente do Oráculo. Ela não era ninguém, tecnicamente. Era um canal. Um rival. Um problema.
"Bolsista." A voz dela era seca. Profissional. "Sabe que aqui é nível um?"
"Sei."
"Então por que está aqui?"
"Com fome."
Ela riu. Não era uma risada de verdade. Era uma risada de performance, com a testa levantada e o ângulo da câmera calculado. Ela estava preparando o clipe. Algo como "bolsista invade mesa de elite" com legendas em português e música dramática. Eu vi os dedos dela se moverem no telefone e ajustarem o ângulo.
"Você não tem convite."
"Você tem permissão pra me tirar?"
A pergunta ficou no ar. O garoto ruivo parou de comer. Vicente, que tinha se calado durante os cinco primeiros segundos, voltou a sorrir.
Antônia não respondeu de imediato. Ela estava calculando. Se ela me expulsasse, perderia o clipe. Se me mantivesse ali, ganharia material. O dilema era simples. O dilema era dinheiro.
"Olha, garoto. Eu tenho dois milhões e trezentos mil seguidores. Você tem... o que?"
"Oitocentos e quarenta e sete no painel."
"Exato. Você não é relevante."
"Fiquei impressionado."
Ela não esperou isso. O sorriso congelou. Alguém que nunca era relevante não responde com ironia. Ou, mais precisamente, não responde com ironia com um sorriso que é arma. Ela errou o ângulo.
"Você sabe o que acontece quando um Nível 4 invade uma mesa de Nível 1?"
"Eu leio o manual. Página trezentas e quinze. Expulsão imediata."
"Então você leu o manual."
"Sim."
Ela fez uma pausa. Estava perdido o clipe. Mas o clipe ainda podia ser gravado. Eu ainda estava ali, no lugar dela, com a expressão que ela queria capturar.
"Não mexa." Ela apontou o ângulo da luminária pra mim. "Olha pra cá. Me faz o mesmo semblante de sempre."
"Não sei qual é o meu semblante."
"É esse. De... de que?"
"Pode ser de cansaço."
Ela franziu o cenho. A câmera captava tudo. Eu vi o ícone de gravação no canto da tela do celular dela. O vermelho piscando. Ela estava gravando.
Antônia abriu a boca pra falar. A boca. A boca.
"O lugar dele aqui não existe."
A voz cortou o ar como lâmina de barbear. Fria. Precisa. Sem elevação de tom. A palavra não era um grito. Era uma sentença.
Antônia virou a cabeça. O celular, ainda gravando, captou a nova figura que entrou no quadro. Eu me virei também.
Valentina Montferrand-Dell'Orto estava de pé na entrada da plataforma elevada. Uniforme impecável, sapatos que eu não consegui nomear mas que me disseram algo sobre Itália e altura de salto, e o cabelo castanho escuro, perfeito como se tivesse acabado de sair de um estúdio de fotografia. Ela olhou pra mesa dos dinastias.
Ela não olhou pra mim. O olhar passou por mim como por uma porta aberta, sem interesse, sem rejeição, sem nada. O corpo, porém, estava orientado na minha direção. Um ângulo de doze graus, o mínimo que se consegue não perceber se você não estiver prestando atenção. O corpo dela estava virado pra mim. A cabeça não. A cabeça ia pra outro lado.
Antônia fechou a gravação. O ângulo da luminária, antes focado em mim, se desalinhou. O celular de Antônia, agora sem ângulo, perdeu o que tinha de útil. Valentina apareceu. Tudo que Val tinha de útil, perdeu a utilidade. Não tinha mais graça. Nem relevância. Nem clique.
"Você está na mesa errada, Montferrand-Dell'Orto." A Antônia não era mais firme. Estava encurralada.
"Estou na mesa certa." Valentina sentou. Não no lugar de Antônia. No lugar ao lado de Antônia, como quem se instala. Como quem nunca foi embora. "Sente, todos. Ninguém foi convidado. Ninguém precisa ser convidado."
Elas ficaram. A mesa inteira ficou. A tensão era física. Eu poderia sentir. O ar tinha peso.
Valentina olhou pra Vicente. "Passa o azeite."
Vicente passou o azeite.
Valentina olhou pra minha direção. "O azeite é de Ligúria. Boa safra. Se você provar, vai entender por que meu uniforme custa mais que o seu."
A frase foi cortante. E eu entendi. Ela não estava me insultando. Estava declarando guerra. Ou declarando algo que se parecia com isso. O ângulo do corpo, a ausência do olhar. Ela estava me dizendo que me via, mas se recusava a confirmar a visão. Como quem finge que o telefone não tocou, mesmo sabendo que é alguém importante.
"O azeite do seu uniforme?" Perdi o controle da ironia. A ironia sempre me perde. "Acha que o azeite tá no tecido?"
Valentina sorriu. O sorriso foi diferente do de Vicente. Não era arma. Era escudo. "Não. O azeite tá no prato. O que eu disse é que o azeite não tem nada a ver com você."
"Obrigado pela precisão."
Ela não respondeu. Voltou a conversar com Vicente como se eu não estivesse na mesa. Mas o corpo continuava orientado pra mim. E eu percebi que aquilo era o mesmo que um olhar. A Colina tinha inventado uma nova forma de atenção. Você podia ver alguém sem mirar, e isso era mais poderoso do que mirar. Era a prova de que você podia escolher o que não ver.
Eu comi. O arroz era bom. O frango, também. Mas eu sabia que não deveria comer ali. A mesa dos Nível 1 era sagrada. Sentar nela sem convite era como entrar num museu pela janela.
Antônia recuou. Recuo, e ela se sentou na cadeira ao lado dela, e o corpo dela girou para se afastar. O corpo. O corpo. O corpo girou para longe. Eu não me virei para longe. Eu comia.
Valentina pegou a taça de água e bebeu. O som foi abafado.
Aos dez segundos, os drones do refeitório, se existiam, captariam tudo. Não sei se existiam. Mas o manual dizia que os refeitórios dos Nível 1 e 2 tinham câmeras. Página trezentas e vinte e duas. Segurança privada. Ninguém deveria ver o que acontecia lá dentro. Mas eu tinha visto. E Valentina tinha visto. E Valentina tinha decidido que eu ia ver também.
Ela me olhou de novo. Desse vez, o olhar não se desviou. Os olhos verdes me pegaram e prenderam. E ali, no meio do refeitório dos Nível 1, num dia de neve que derretia no gramado artificial do campo que ficava a trezentos metros de distância, eu percebi que Valentina Montferrand-Dell'Orto não me olhava com desprezo.
Olhava com calculo.
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